quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O pardal e o velhinho

Sugestão de música para ser ouvida antes, durante ou depois de ler!
 
Somewhere Over The Rainbow

Todas as manhãs, quando o sol vinha subindo pelo leste dourando a grama verde, um simpático velhinho, saía de sua casa, cruzava a rua e se sentava em um banquinho de madeira, feito de um toco de lenha, embaixo da frondosa copa de um angico. 

As pessoas da rua, acostumadas à sua agradável presença sempre o cumprimentavam e vez ou outra alguém sentava perto dele, falavam sobre os tempos antigos, sobre o clima, sobre chás medicinais ou simplesmente sentavam para ouvir as histórias de pescador que ele contava. 

Dificilmente ficava quieto, quando não havia ninguém por perto pra conversar, ele falava sozinho. Nessas horas, obviamente, ele falava bem baixinho para que não pensassem que ele fosse doido. E o pior é que ele não falava somente com os seres humanos, falava também com animais e coisas. 

Falava consigo mesmo, falava com a chuva, falava com o vento, falava com anjos, falava com D´us. 

Acordava com o canto do galo e levantava pra lavar o rosto. Mesmo tendo torneira em casa, preferia encher de água uma caneca feita por ele mesmo a partir de uma lata de doce de leite. Agachado atrás da casa lavava as mãos e o rosto, depois pendurava a caneca num prego em cima do tanque. Sempre conversava com a água pela manhã. Bebia café preto com uns bolinhos de chuva que ele mesmo fazia e que ficavam tampados num prato de esmalte em cima de uma mesa de madeira. Depois do desjejum, ia cuidar das plantas: enchia a caneca de água e molhava cada uma de suas plantas. Começava com os pezinhos de boldo e macaé, que eram bons pro fígado, passava pela cebolinha, salsinha, a taioba (essa precisava de bastante água, umas três canecas cheias) e depois de aguar todas as verduras, voltava pra cozinha e ficava ouvindo o rádio. 

Um retrato de sua falecida esposa estava pendurado na sala. Cupins insensíveis deixaram furos na moldura antiga. O retrato estava manchado, mas a lembrança do dia retratado era tão vívida em sua mente que o fazia suspirar de saudades dela. Nunca a esquecera. Sempre sonhava com ela e em seus sonhos, os beijos de sua amada produziam um sentir tão profundo, um misto de alegria e tristeza que muitas vezes acordava chorando, um choro sentido, sozinho na mesma cama que dividiram por tanto tempo. Quando acordava, chamava por ela baixinho e não conseguia evitar a vontade de partir ao seu encontro, em algum lugar além do arco-íris onde pássaros azuis voam e seus sonhos se tornam realidade. 

Antes de ir pro seu banquinho embaixo do angico, pegava um punhado de canjiquinha pra alimentar os passarinhos que apareciam. Um pardalzinho era seu velho conhecido, já estava tão mansinho que comia nas mãos do velhinho. Muitas vezes, ele conversava com aquele pardalzinho, imitava o seu trinado e o atraía com os grãozinhos. Era tão bonita a amizade dos dois que aquele pardalzinho ficou acostumado e aparecia todos os dias. 

Quando o passarinho ia embora, o velhinho cochilava um pouquinho, debruçado sobre os próprios joelhos, sentindo a luz do sol da manhã aquecer lhe o corpo. Seus netos que saíam pra brincar, muitas vezes se divertiam em acordá-lo num repente, pedindo a bênção.

 _ Bênça Vô! Dizia um de seus netos, vendo o avô a cochilar. Acordava assustado do cochilo, mas não conseguia ralhar com o netinho, rindo da traquinagem ele respondia: 

_ D´us te dê boa sorte e saúde! - e aos poucos acabava cochilando de novo, até a hora do almoço. 

Numa manhã de outono, o velhinho estava muito calado, fez as mesmas coisas cotidianas, mas sem o costumeiro falatório que lhe era característico, estava sério e pensativo. Sentou-se como de costume embaixo da árvore, naquele dia abafado, o mormaço aumentava-lhe o sono e suas pálpebras foram logo se fechando... 

_Bença Vô! Gritou um de seus netos. 

Ele ouvira a voz do menino, mas aquele sono estava tão profundo que não o deixava acordar pra responder. 

Sentiu que alguém, tocava seu rosto e quando abriu os olhos viu sua esposa, jovem e bela como quando a conhecera. Ficou sentindo o leve toque das mãos suaves de sua amada em seu rosto, pousou sua mão sobre a dela, podia sentir seu perfume e o calor de sua pele, pensou que estava sonhando naquele longo cochilo, mas decidiu não desperdiçar aquele breve momento em que seus mundos se encontravam, entregou-se à experiência e levantou-se imediatamente, seguindo-a por aquela planície verde e sem fim. 

_Bença Vô! Vô? Vovô? - Sacudiu-lhe o menino, mas os olhos do velhinho não se abriram mais, pelo menos não neste lado do rio. 

Pessoas disseram que depois desse dia, um pardalzinho era visto todas as manhãs, sozinho, pulando de um lado pro outro no banquinho de madeira, embaixo do angico.

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Dedicado aos meus avós que já partiram pra algum lugar além do arco-íris