segunda-feira, 8 de abril de 2013

Oráculo

Eu estava ali testemunhando a tortura daquela criança.

Ela murmurava palavras que pareciam desconexas, enquanto tremia de frio, mergulhada naquele tanque de água e gelo. Ela não tinha mais do que oito anos, me lembro com uma terrível amargura daqueles olhos azuis arregalados se movendo horizontalmente, de um lado para o outro, suas pupilas dilatadas não se fixavam em nada naquele galpão, era como se estivessem olhando para um outro mundo. Seu corpinho, raquítico, se agitava em espasmos violentos enquanto ela continuava a pronunciar palavras e frases que pareciam não ter sentido algum.

E eu ali a seu lado, incapaz de salvá-la daquela tortura. Os lábios dela se moviam como que recitando um mantra sagrado, vapor congelado saía de suas narinas enquanto ela respirava e sussurrava. Quando me aproximei daquele tanque, ela segurou a minha mão com força e começou a falar mais alto, olhando para mim.

- O sexto lacre foi rompido - disse ela - a face do mal pôde ser vista, seus abutres se fartarão de nossa carne mas não poderão tocar nossas almas.

Nesse momento pude ver uma expressão de esperança em seu rosto, e continuou falando:

- Os gigantes estão caminhando no céus, Ehud ! E os pequenos os seguem, traçando um caminho entre as estrelas!

Ao ouvir essas palavras, logo pensei que ela estivesse delirando, fora de si, mas ela segurava fortemente a minha mão e se esforçava para falar como se aquilo fosse uma coisa muito importante, que eu tivesse realmente que saber. Continuei ali ouvindo os delírios daquela criança, como se estivesse realizando o seu último desejo. 

- Cinco deles, mostraram o caminho - falou sussurrando como se fosse um segredo - acredite em mim, Júpiter e Saturno começaram, Marte, Vênus e Mercúrio os seguiram, a linha que eles fizeram aponta para uma ilha, onde o tesouro está escondido! Ao falar essa parte ela sorriu e apertou a minha mão.

- De que tesouro você está falando, neshumelle? - perguntei a ela.

- O maior tesouro do universo está escondido em um vaso de barro, a cestinha cruzou o oceano dessa vez e uma mulher a recolheu numa ilha, o tesouro está escondido lá, eu vi seus olhos azuis, eu vi e ele me olhou de volta e um dia ele vingará minha dor. O guardião guiou os pais que cruzaram o mar navegando sempre para o oeste, não conte isso a ninguém Ehud!

Ela soltou minha mão e continuou a murmurar palavras assim, sem sentido, pobrezinha, provavelmente enlouquecera ali. Tentei me afastar do tanque, mas ela segurou a minha mão novamente, dessa vez com mais força, olhou pra mim e falou bem alto quase gritando:

- Eles falharam! Ehud ! Eles falharam pela terceira vez! Eles viram os gigantes se movendo e souberam que ele viria, como no passado. Vasculharam nossas casas mas não o encontraram! Eles sabiam que ele estava na terra e sabiam que viria até nós, sabiam que ele seria um de nós, por isso estão nos matando aqui, mas eles não o encontrarão, eu o vi ! Ele está vivo ! Ele está vivo E ele não se esquecerá de nós! 

Dizendo isso ela chorou de alegria, enquanto tremia e tinha espasmos de frio. Eu fiquei realmente assustado com o semblante daquela criança, seu rosto não parecia mais atormentado, enquanto falava aquelas palavras, ela parecia estar em êxtase, numa alegria inexplicável. 

Era questão de horas até que Hannah morresse. Eu já não conseguia mais ouvir seus delírios porque ela já não tinha forças para falar, mas percebia as diferentes expressões em seu rosto, parecia um diálogo interno, reconheci expressões de medo, raiva, e por incrível que pareça, predominavam expressões de alegria realmente inexplicáveis! Surgiu em mim um súbito interesse por aquelas palavras insanas que ela sussurrava, me aproximei então e ouvi:

- Eles estão lá, Ehud! Eles se alinharam, colocaram roupas de festa e apontaram o dedo para nós, Zeus, Cronos, Ares, Afrodite e Hermes salvarão Selena e Gaia. Hades enviou escorpiões para matá-lo, mas eles se confundiram e foram pisoteados pelo Homem Verde que controla o tempo. Ele está escondido na Ilha, no tempo certo ele virá, me levantará, me dará roupas novas, brincos, anéis e pulseiras e me levará á cidade alta, pra ouvirmos música e dançarmos. Você verá, Ehud! Ele virá até você e você o reconhecerá porque eu te disse que ele viria. Mas cuidado, com o homem que vem num cavalo amarelo, ele traz a morte nos olhos e é o líder dos abutres devoradores de carne. Conte os dias, os anos, olhe para as estrelas, não deixe que suas cãs o desmereçam, porque ele controla o tempo e seu corpo cansado será mudado rapidamente. Três, Cinco, Sete, Oito e Doze são os seus números, escreva um áleph e um shin em suas mãos, seu nome é um segredo, ele se sentará contigo na noite de Pessach, beberá vinho em sua casa e você o reconhecerá quando a alva subir...

Enquanto falava, Hannah desmaiou, segurei-a para que não se afogasse até que mandaram tirá-la do tanque, me ajoelhei com ela nos braços, tentando aquecê-la um pouco com meu corpo, até que mandassem levá-la pra enfermaria. Como ninguém me dava nenhuma ordem, fiquei ali abraçado à ela, como se aquele abraço pudesse salvá-la, de repente ela começou a se agitar, tremendo muito, gritei por socorro, ninguém falava nada, me levantei com ela tremendo nos meus braços e corri pra enfermaria, pra ver se alguém lá faria alguma coisa. Senti Hannah morrendo em meus braços , antes mesmo de chegar à enfermaria. Quando finalmente cheguei,o médico responsável por aquelas experiências, apenas verificou a pulsação dela e percebendo que já estava morta, olhou pra mim com aquele olhar frio, terrível e apenas disse:

- Ela está morta, já sabe o que fazer.

O nome do médico era Josef Mengele.

Meu nome é Ezra Meed e essa menina se chamava Hannah, o ano era 1940 e ambos éramos prisioneiros em Auschwitz.

Hannah e sua irmã gêmea Rivka, faziam parte de uma série de experiências médicas, onde recebiam diariamente injeções de uma determinada droga que deveria aumentar a resistência delas às baixas temperaturas, por isso ficavam imersas juntas naquele tanque gelado. Rivka teve febre e morreu naquela noite, o que não impediu que eles trouxessem Hannah naquela mesma manhã. Durante todos os dias daquela semana fui obrigado a cuidar daquele maldito tanque.

Saindo dali levei o corpo de Hannah, até o amontoado de corpos e ali deixei.

As palavras daquela criança nunca saíram da minha cabeça, será que fariam algum sentido? Enquanto ela falava, parecia triunfante, como se estivesse vendo um futuro de muita felicidade.

Descanse em Paz, neshumelle!