segunda-feira, 20 de maio de 2013

Quando a Lua se vinga - da série "Contos Inacabados"



Aquele tinha sido um dia estranho no vilarejo, uma manhã calma e silenciosa, uma tarde de muitos ventos, nenhuma nuvem no céu de um outono frio. O sol parecia mais apressado do que de costume e já seguia seu caminho rumo ao ocaso dando lugar a uma pálida escuridão.

A estrada para a cidade de Akello, cortava o vilarejo de Raani trazendo sempre forasteiros e viajantes, procurando por hospedagem. Os moradores que tinham boas casas, sempre alugavam quartos para os viajantes, contudo a principal hospedaria do vilarejo era mesmo a de Donkor Basiel, com muitos quartos, estábulo para os animais e uma taberna.

Naquela semana, um mercador da cidade de Nura trouxera alguns barris de uma safra especial de vinhos, o que atraía compradores de todas as terras da região, gerando bastante movimento, principalmente durante a noite.

A Lua cheia erguia-se no leste, quando começaram a chegar cavaleiros, servos e vassalos de Sor Abod, para provar do precioso vinho cultivado nas terras de Nura. Hamza, o caçador e seus dois filhos chegaram ao anoitecer, seguidos pelos servos de Sor Emmet.

Pouco tempos depois das estrelas da Serpente Alada surgirem no céu, Anke e Kimei, sobrinhos de Sor Dosha, chegaram fazendo muito ruído, rindo e falando alto.

Esses dois irmãos eram conhecidos baderneiros e já estariam mortos se não fossem sobrinhos do temido Sor Dosha, vassalo de Lorde Tau, o Senhor de Akello. Dentro da taberna, encontraram os servos de Sor Abod e começaram a provocá-los, zombando deles das diversas maneiras, os servos ouviam as provocações mas se limitavam a ignorá-las, mesmo sabendo que qualquer um deles poderia derrotá-los no caso de uma briga. Mas se isso acontecesse, seus senhores iriam se enfrentar e haveriam muitas outras mortes. Alguns deles ainda se lembravam da Batalha do Vale da Figueira, o último confronto entre Sor Abod e Sor Dosha. A paz só fora alcançada com a intervenção diplomática de Lorde Tau e era mantida com muita dificuldade.

A noite estava clara e por algum motivo qualquer, os dois resolveram sentar-se ao ar livre, numa mesa de madeira do lado de fora da taberna, para a discreta alegria de todos. Mesmo do lado de fora, gritavam como loucos, rindo e se ofendendo mutuamente.

_ Prostitutas! Gritavam do lado de fora. Não há mulheres nesta taberna, Donkor, seu maldito!

E realmente não haviam. Donkor Basiel, tinha esposa e filhas. Não permitia prostitutas na sua estalagem.

Não haviam bordéis em Raani. Uma cortesã, chamada Shifa percorria os vilarejos numa pequena comitiva com algumas prostitutas em três carroças e como não eram bem vindas ali, normalmente paravam sua comitiva num descampado á beira da estrada, próximo ao rio.

Os dois irmãos continuavam do lado de fora pedindo por prostitutas e gritando todo tipo de imoralidades.

_ Donkor, seu maldito, vá buscar a velha Shifa, pagarei uma moeda de prata por um par de coxas quentes - gritou Kimei.

_ A velha Shifa está no descampado – gritou um dos servos de Sor Emmet – chegou de Limber há dois dias, com algumas mulheres novas, uma delas é da Ilha de Nayo.

As mulheres da ilha de Nayo, eram reconhecidas por sua extrema beleza, dizia-se que eram descendentes de uma das criaturas do mundo antigo, tinham rostos perfeitamente simétricos e cabelos de diferentes cores, eram cobiçadas em todos os reinos e quando se tornavam prostitutas cobravam fortunas por seus serviços.

_ Por que não nos disse isso antes, filho de Shifa ! - gritou Anke, enquanto pensava em se levantar para ir até o acampamento das prostitutas. A noite estava clara e o acampamento não ficava tão longe, se era possível chegar lá rapidamente caminhando pela estrada, cavalgando seria ainda mais rápido. Os dois baderneiros começaram a preparar seus cavalos quando avistaram uma mulher caminhando pela estrada vindo em direção ao vilarejo.

_ Parece que não teremos que cavalgar tanto afinal – comentou Kimei com seu irmão, insinuando que a mulher que vinha sozinha pela estrada seria uma das prostitutas de Shifa.

Os dois caminharam até a beira da estrada para abordarem a jovem que caminhava. Deve estar vindo à procura de homens – pensaram eles. Enquanto ela se aproximava, puderam notar sua extrema beleza. Tinha cabelos pretos, que o vento da noite teimava em movimentar, a luz da Lua evidenciava a pele branca do seu rosto, entretanto não se vestia como uma prostituta, pelo contrário, usava uma espécie de manto sobre o vestido que lhe cobria quase todo o corpo. Deveria ser uma daquelas mulheres exóticas da Ilha de Nayo - pensaram - tinha muitos anéis e pulseiras, mas um único colar cujo emblema não conheciam. Quando se aproximou, revelou um par de olhos azuis inacreditavelmente belos. Excitados por aquela beleza sobrenatural, os dois interpelaram a jovem mulher, com gracejos e pantomimas.

_ Ei Dama dos Prazeres! - gritou Kimei - venha provar sangue nobre! Se for uma boa égua esta noite, comerá pasto verde pela manhã! 

Os homens da taberna, saíram para ver a tal mulher da estrada. Se fosse mesmo uma prostituta procurando por homens na taberna, Donkor certamente a mandaria de volta para Shifa e provavelmente, os sobrinhos de Sor Dosha regressariam com ela para o acampamento.

No entanto, a jovem não era uma prostituta e ignorando os gritos deles, continuou seu caminho a pé pela estrada em direção a Akello. Enfurecidos pela indiferença da moça, correram em sua direção na intenção de tomá-la à força.

Se fosse uma prostituta não recusaria a oferta deles – pensou Donkor – e ao ver que os rapazes corriam para violentá-la chamou os homens que estavam na taberna para impedi-los.

Os dois saltaram violentamente sobre ela, Anke a agarrou por trás impedindo que ela movesse os braços enquanto Kimei vindo pela frente, com as duas mãos apertava o rosto da moça e ria dizendo obscenidades. Donkor e os outros em vão gritavam para que eles parassem com aquilo e não fizessem mal à moça. Alguns milicianos seguravam suas espadas, aguardando apenas que Donkor os convencesse a parar. Na janela da casa, a esposa e as filhas de Donkor Basiel acompanhavam a tudo aquilo, desesperadas e compadecidas da pobre moça, ao mesmo tempo temendo o que aconteceria se Donkor ferisse os sobrinhos do temido nobre.

Ninguém até então tinha reparado nas feições da jovem que estava sendo atacada. Com o semblante estranhamente tranquilo, olhando fixamente para Kimei, a jovem começou a falar, num idioma desconhecido.

_ Alore Elasha ... Alore Ro ... Alore Shemevi ... Alore Kediv !

De repente, Kimei começou a sentir suas mãos adormecendo, sentiu câimbras em todos os músculos do corpo, perdeu as forças nas pernas e caiu no chão, caído pode ver seu irmão tendo convulsões e se debatendo na poeira da estrada. Tentou gritar, mas a sua voz não saía, um zumbido estridente soava em seus ouvidos causando-lhe uma dor intensa, sangue escorria por todos os orifícios do seu corpo, tentou mover-se, mas estava paralisado. Enquanto sua visão escurecia, ainda conseguiu ver seu irmão se revirando no chão, enquanto as pernas da moça se afastavam continuando seu caminho. Seus pensamentos mergulharam num silêncio tenebroso. Por fim não sabia se estava vivo ou morto, uma terrível angústia foi toda a vida que lhe restou mergulhado naquela densa escuridão.

Um temor profundo se abateu sobre todos os que assistiram aquela cena, muitos deles lembrando das lendas antigas já imaginavam o quê haviam presenciado. No alto, as filhas de Donkor espiavam por uma fresta da janela, enquanto sua mãe lhes explicava que em noites de lua cheia, mulheres belíssimas, conhecidas como "Filhas da Lua" caminhavam pelas estradas procurando por homens gentis que merecessem desfrutar um cêntimo dos seus encantos. Nas maioria das histórias, elas eram ajudadas por bondosos cavaleiros que lhes ofereciam escolta e proteção, sendo presenteados com noites inesquecíveis de paixão e luxúria. Não obstante, quando encontravam homens ruins, que tentavam fazer-lhes mal, se defendiam amaldiçoando-os numa língua antiga, conhecida apenas por elas. Os amaldiçoados cairiam numa demência profunda, permanecendo num estado deplorável de semi-vida. Muitos eram encontrados, ainda vivos sendo comidos pelos vermes da terra, outros por sorte, encontravam alguma alma grande que lhes desse o ultimo golpe de misericórdia, fosse com uma espada afiada ou com um simples travesseiro. Naquela mesma noite, mensageiros de Donkor foram enviados ao castelo de Sor Dosha para que a família tomasse providências, pois nenhum dos presentes ousaria tocar os corpos dos amaldiçoados.

Desde então, as pessoas começaram a chamar aquele lugar de "Iasi Erim" que na língua antiga significa: "Quando a Lua se vinga".