quarta-feira, 22 de maio de 2013

Seja homem e não me siga; eu mesmo fugi de mim, e, agora, olho para o que eu fui – por muito tempo


E pensar que eu costumava ser visto na companhia de cervejas importadas e cigarros Lucky Strike e mulheres com tatuagens desconexas, e poetas herméticos, mais desconexos ainda. Tinha uma garota, Candy... Bom, o nome dela era Jennifer, na verdade, mas Candy lhe parecia mais atrativo. E um cara. Não lembro o nome dele agora, mas a poesia dele fedia a amor platônico. Tudo parecia mais atrativo – de dentro –, mas éramos só aquilo que se via, superficiais como os cinzeiros, onde descansavam nossos cigarros Lucky Strike; aliás, queimavam mais ali que em nossas bocas. Candy tinha uma boca sempre púrpura, como o coração estampado em sua coxa esquerda, que era acompanhado de uma faca e um terço. Ela e o poeta me acompanhavam, e as cervejas importadas vinham na rabeira.

Todos nós, e os outros também, escrevíamos; nos proclamávamos os malditos, os subversivos, os antis-sistema, a contracultura; usávamos toda e qualquer palavra que soava bacana nas nossas vozes cansadas, corroídas pelo cigarro e pelas noites mal-dormidas; o café... as calçadas geladas. Alternativos e destemidos! – que mudavam as próprias palavras quando o corretor ortográfico do computador dizia que estávamos errados. Na verdade, nossa falta de noção do ridículo e de qualquer discernimento nos fazia mudar as palavras sempre no momento errado; agir precipitadamente, tornando o texto mais espalhafatoso - e nada sincero. Éramos escandalosos em nossas palavras, tínhamos tudo - e tínhamos nada... Nunca contamos moedas do lado de fora de uma padaria, nunca comemos sentados numa calçada suja. Não sabíamos o que era gentileza; tampouco, escrever bem. Cuspíamos no chão, e entrávamos no café, a esquerda, para falarmos alto – que escândalo! – sobre como éramos bons naquilo que não fazíamos.

Aquelas poetisas (que nome escroto)... Bucetas molhadas que nada mais faziam, além de subir e descer, sem nenhum objetivo... Transar com uma delas era como ler um dos poemas que produziam. Palavras enfileiradas. Elas jogavam metade para um lado metade para outro e continuava parecendo com palavras enfileiradas; com nada. Só faziam sentido para elas e suas bucetas e para Candy e a tatuagem de coração púrpura com faca e terço. Ah! e quantas vezes eu pensei sair dali... e ir pra onde? Eles me respeitavam, de certa forma. A não ser por não serem sinceros com aquilo que lhes oferecia, mas o que lhes oferecia, meus contos, também não era nada sincero. Elas por elas...

Nós fazíamos saraus. SARAUS. E nos achávamos o máximo por isso. EGOS. Não tinha espaço para todos eles naquele pequeno palco, com microfone e banco de madeira, na rua 15...

Eu não volto mais lá...